“O voto é a nossa voz”, conta presidente do PSOL Taubaté
- Isabela Rodrigues dos Santos
- 8 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
Militante de esquerda Aneska Souza relata quais são as dificuldades que uma mulher negra enfrenta na política brasileira

Nascida em Volta Redonda (RJ) em 1994, Aneska Souza ingressou na militância política em 2015. Apesar da pouca idade, ela já se tornou presidente do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) de Taubaté aos 25 anos e faz parte do Coletivo Juntas. Formada em Serviço Social pela Universidade de Taubaté, Aneska quis se envolver na política por ser uma pessoa questionadora, que ficava perguntando o porquê de a vida ser tão desigual, tão cruel para uns, enquanto para outros, parecia ser tranquila. Foi quando resolveu se conectar ao PSOL por reconhecer na sigla os ideais sociais que ela procurava, que até então, só faziam parte dos seus questionamentos. Aneska possui grande experiência na militância, tendo começado no movimento estudantil – que também é político – e agora atua na pauta de mulheres e de negritude, que não são lutas separadas, pelo contrário, elas se entrelaçam em muitos aspectos. Em Taubaté, além de organizar manifestações pelas pautas feministas e antirracistas, além do grito “Fora Bolsonaro”, atou junto aos coletivos Juntas e Juntos e ao PSOL no movimento pela renda básica municipal e contra a reforma da administrativa do prefeito José Saud.
Vale Repórter – Quais suas inspirações e referências políticas?
Aneska Souza - Minhas inspirações políticas são a Tamires e o Du, que foram meus dirigentes por um tempo. Minha inspiração vem de quem milita comigo todos os dias, de quem acredita e busca um outro projeto de sociedade. Minhas referências são Mônica Seixas, Sâmia Bomfim, Mariana Conti, Lélia Gonzalez, Marielle Franco, Fernanda Melchiona, Luciana Genro, Vivi Reis, Paula Kaufman, Sueli Carneiro, Angela Davis, Dandara, Maria Felipa, Bruna, Glaucia, entre outras milhares de mulheres lutam todos os dias.
Qual foi a sua experiência mais marcante como mulher negra na política?
São muitas, mas acho que a presidência do PSOL Taubaté é a mais marcante, porque virei uma chavinha dentro de mim sobre o que eu queria para a minha vida, para meu partido e para Taubaté.
Qual a importância do envolvimento das mulheres na política?
Somos a maioria da população do país e é fundamental que as mulheres estejam nos espaços que vão decidir sobre nossas vidas. Mas sempre é bom lembrar que precisamos de mulheres que defendem a nossa vida, e não mulheres como a Damares (Ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil) que estão num espaço de poder, mas que acabam recuando direitos já conquistados.
Qual é a importância do voto?
O voto é nossa voz, é nosso direito de escolha, é o que temos para garantir que somos ouvidos.
Como o voto pode mudar o cenário de minorias?
Não pode. AÍ eu entro em um debate em que pergunto: quem são as minorias desse país? Porque a maioria da população são de negros, mulheres, LGBTs. O que eu acredito que pode mudar o cenário são as lutas que travamos diariamente. O que o voto pode nos garantir é colocar pessoas que realmente estão preocupadas com essas pautas.
Como a Sra. avalia o cenário político causado pelas eleições deste ano?
As eleições deste ano são as mais importantes desde a redemocratização, depois de 4 anos vivendo o que temos de mais perverso, de um governo que não está preocupado em vacinar a população, que nega a urgência da pandemia e que tem o compromisso em armar a população. Então, numa defesa da democracia, o Lula é o candidato natural para derrotar o Bolsonaro, mas sem nenhuma confiança que isso acaba o bolsonarismo. A maior diferença entre os candidatos é que o Lula tem um olhar democrático social e já o Bolsonaro é totalmente reacionário, que defende o golpe de Estado.
Como um governo de direita como o atual impacta na sua vivência e na vivência de outras mulheres negras na política?
Em tudo. Delibera projetos que só acabam com nossas vidas, que proclama e aplaude projetos e ações que nos destrói e que se vangloria das chacinas que acontecem no Rio de Janeiro.
Houve uma redução de 14% dos jovens entre 16 e 18 anos com título de eleitor. Por que os jovens se distanciaram das urnas, mesmo com tanto apelo social?
Porque o jovem brasileiro está se preocupando em como vão sustentar a família e encontrar um emprego. Também acredito que faz parte de um projeto político que promove o afastamento dos jovens com a política.
Quais são as outras formas de se praticar a cidadania, além do voto e da representação política?
Coletivos, grêmio estudantil, mas, principalmente, se organizar em coletivos políticos. Tenho que falar dos que me cercam que é o Juntos, um coletivo de juventude, o Juntas, que é um coletivo feminista e a Rede Emancipa, que é um movimento por educação popular.
Por que mesmo mulheres sendo 52,5% do eleitorado brasileiro, a maioria dos eleitos são homens?
Por causa do machismo que está enraizados na nossa sociedade. Esses espaços foram feitos e pensados para os homens brancos. O direito ao voto das mulheres foi conquistado em 1932 e somente 1933 teve a primeira deputada federal do Brasil, ou seja, é muito recente.
Quais mudanças um coletivo político pode causar?
Todas que ele se propõe a fazer, mas através de muita luta. O movimento feminista argentino conquistou recentemente legalização do aborto no país, e foi uma luta de anos. Acredito que a coletividade e a luta podem transformar a vida.
Como atingir a paridade entre homens e mulheres na política?
Acredito que a criação de uma cota de 50% no parlamento brasileiro.
Por que a política deve ser uma preocupação de todos?
Todos nós dependemos da política, a política rege a vida do povo brasileiro, seja no uso da política mais básica até as mais “avançadas”
Qual o cenário em que uma mulher negra se depara ao entrar no meio político?
Se depara com o racismo, machismo e todas suas opressões. O meio político é majoritariamente representado por homens que tem repulsa de ocuparem o mesmo espaço com mulheres, principalmente as negras. Ressalto o que a Mônica Seixas passou na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) e Marielle, que foi brutalmente assassinada.
Como legendas diferentes de esquerda podem contribuir para uma mudança de governo? Elas podem se unir?
A esquerda brasileira é plural. Essencialmente existe uma esquerda mais conciliadora e uma esquerda revolucionária, o que nos difere. Porém existem pontos programáticos em comum, como atualmente que estamos unidos para derrotar o governo Bolsonaro.



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